Um dia você se arrepende.
Novembro 20, 2009
Hoje
Hoje senti saudade dos tempos de ontem. Do sorriso leve e dos sonhos grandes. Senti saudade da minha cidade pequena, das ruas vazias e da grama verde por entre as quadras. Pensei no quanto deixei por lá um pedaço do meu coração. Das pessoas que já amei e que esqueci, das que ainda amo e das histórias que vivi. Senti saudade do calor de cada verão e do céu infinitamente azul. Senti saudade das pessoas felizes, da facilidade de um beijo ou do vai-e-vem de um na casa do outro. Senti saudade da gente sofrida e do dia-a-dia na luta pra se comprar o pão. Pensei nos prédios exatos e de mesmo tamanho. Nas avenidas largas. Os bares cheios de tédio. A poesia própria, mas quase inexistente. Uma cidade fantasma, mas pulsante. Hoje senti saudade…
Novembro 17, 2009
Adeus
Às vezes o amor precisa de ausências. Longas. Talvez pra sempre. E talvez o amor nunca sobreviva ao agora. A essa desconstrução de sentimentos vividos no dia-a-dia de uma rotina escolhida. Nunca acreditei nesse tipo de paixão, entende? Mas resolvi apostar, porque é assim que se faz. Isso mesmo. É assim que as pessoas matam qualquer sentimento bom. Aprisionando-o dentro de uma jaula invisível. E quando você vê, tarde demais. O amor sem mais nem menos vira a cara pra sua vidinha de quarto e sala. E é exatamente nesse momento que o mundo se divide entre os medíocres e os que têm coragem de dizer adeus.
Novembro 12, 2009
Coração
Partia o coração vê-la assim de camisola no colchão da sala escura. A rotina que antes a matava dava lugar a um não fazer diário que a sufocava aos poucos. Seguia sua calculadora mental e quebrava prontamente todos os horários virtuais que havia estipulado pra si. Enchia a cabeça de projetos que não existiam só para enganar um pouco o tédio. Escrevia um milhão de vezes a mesma palavra pra poder se lembrar de que um dia havia escrito. Chorava olhando as paredes sem cor e as duas prateleiras penduradas vazias. Sentia passar por entre os dedos o tempo de sua juventude madura. E sabia que um dia havia de se arrepender de tanta disciplina e solidão. Jurava mentirosamente que daquele dia em diante não mais ficaria entregue a seu próprio não destino e iria sair em busca de novos sorrisos na rua. Mas a chuva chegou. Cinza. Perdia as contas das vezes em que sonhava acordada. Contava bem baixinho as esperanças que tinha. Cantava devagarinho e sorria de canto, com vergonha dos que podiam lhe ver. Arriscava uma dança pra sentir o corpo vivo, mas parava e atentava pro seu coração partido.
Novembro 4, 2009
Mulher maravilha
O Chico Buarque decorado durante o dia nada mais era do que uma estratégia de te ver sorrir quando chegasse em casa. E, mesmo quase nunca acordada, esperava o momento de cantar a música de letra adulta e te ver olhando pra mim e achando aquilo a coisa mais engraçada que já havia ouvido na vida. Sorria. E eu achava mais graça ainda e não entendia porque você mesmo achando tanta graça tinha de ficar tão distante todos os dias. E doía. De uma dor diariamente sufocada por minhas lágrimas infantis no parapeito de uma janela do sexto andar. Lembra? Eu lembro. E lembro do seu desespero por me ver pendurada, beirando a morte, e implorando pela presença materna diária. Parece até abandono. Um drama de família. Mas não era. Era questão de sobrevivência mesmo. Questão de alguém que, por não saber amar e não saber escolher a quem a amasse de verdade, teria de arcar com três filhos pequenos e uma vida solitária pela frente. Mesmo continuando casada. E você continuou aquela história toda só pra não acabar com algo que já estava completamente fodido. Nunca houve união, entende? E o mais estranho é que uma criança de oito anos conseguia distinguir o desapego muito melhor do que qualquer adulto. Melhor do que você, do que ele. E como eram diferentes. Aquela coisa de aparência só te fez perceber que o mundo era feito de não-aparências. E que era feito de encarar a vida mesmo. E de cagar pra opinião dos outros. E de acordar cedo e cansada, mas docemente beijar seus três filhos e seguir em frente. Sempre sofrendo, mas de um bom humor irritante. Sentia sua falta, sabia? Mas não era egoísta. E soube viver a vida sozinha mesmo. Decidindo quando e como tomaria as decisões mais prosaicas do meu dia-a-dia infantil. E foi assim que te vi crescer e me vi crescida. Uma admiração profundamente feliz. A mulher maravilha do meu quadrinho. Meu exemplo, minha amiga, minha companheira e minha confidente sem noção. A família de uma só mulher.
Novembro 4, 2009
…
“Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele – isso é algo que sempre deveríamos ter presente”. Claude Lévi-Strauss
Outubro 25, 2009
Farsa
É de farsa que se vive a vida. E é assim que se engana a felicidade. Fingindo e criando personagens que te permitem colocar a cara na rua todos os dias. E aonde foi parar toda minha poética? Onde estão os versos bonitos? As palavras de amor? Estão todas aqui, amordaçadas. Hoje não quero palavras bonitas, só quero o ócio, um pouco de raiva. E a certeza de que nunca mais tentarei fingir. Por pouco me engano outra vez, sabia? Será que você sabe disso? Que por muito pouquinho eu quase me fodo outra vez? Que quase sou o que você quer que eu seja? E pra falar a verdade fico aqui pensando, de fininho, se realmente não deveria ser o que havia escolhido ser, mesmo sem saber. Mesmo com tanto medo. Será? Arrisco mais uma vez? Mas meu coração não me deixa mentir. Fingir. Não me deixa continuar com essa grande e verdadeira farsa que tem sido a minha vida. Mas arrisco mudar. Ou então, como você me disse uma vez, desespero-me demais e com esse desespero crio uma realidade que é só minha. Fantasio. Crio meus próprios inimigos. Os que estão de fora não me leem. E pode ser até que eles me achem inteligente, que me achem uma grande aliada e que acreditem no que decorei pra falar. Pena tudo isso não ser verdade, não acha? Pena mesmo não ser bem-sucedida, não acha? Esse sucessinho de merda que nunca quis alcançar. Nunca. A verdade é que estou exaustamente feliz, porque pelo menos descobri o que não quero ser. O que sou, o que serei, é o agora ou virá com o tempo, com o amor de poucos, com a crença de que foi pra isso que nasci. Pra que? Pra isso aqui que estou escrevendo. Pra despertar sentimentos nos outros. Isso mesmo. Pra fazer sentir o que sinto. Mesmo que pra isso morra miseravelmente feliz.
Outubro 13, 2009
Simples assim
O que queria era de uma simplicidade tão grande que nem mesmo conseguia explicar. Complicava-a. Quem? A vida. Qual? A vida que nunca havia pedido a deus. Que me deram assim sem eu saber. De um amor meio que não amor. De uma coisa tão louca que só podia dar nisso. Nisso o que? Nessa menina assim sem destino e sentido. E quem disse que todo mundo tem destino? Parece que tem sim. Somente ela, naquela sua solidão escolhida, seguia com o vento. Nunca fez planos concretos. Desses assim escritinhos num pedaço de papel em branco. Não. Nunca fez planos. Foi vivendo assim como quem quer viver e ser feliz pra sempre. Sorrindo quando tinha lágrimas nos olhos, calando quando queria gritar. Foi assim mesmo que foi vivendo. Sem a certeza do que viria amanhã, mas desejando cada amanhã com toda sua alma infinitamente bonita. E o jardim que você havia me prometido? Prometeu? Sim. Nunca esquecerei. Quando nos beijamos lá naquele quintal tomei conta do que era meu. E no fundo no fundo nunca quis sair de lá. Eu te juro. Juro. A grama verde, o cachorro solto, a piscina azul. Essa é a simplicidade de que estava falando, entende? A grama… Sem falar no céu com todas as estrelas nos olhando. Foi mesmo especial. Tão tão tão forte que você conseguiu me convencer a dividir algo que nunca quis dividir com ninguém: minha liberdade. E dividi e ainda a divido e a busco loucamente todos os dias, porque não nasci em conjunto, sabe? Eu nasci sozinha. Completamente cheia de mim. Mas quando se ama, você se destina a algo que não sabe muito bem o que é. Talvez os mais tolos saibam. Tolos e felizes. Essa coisa de sonhar o sonho do outro. De dividir a tristeza. Nunca mais seria só. Mesmo sendo só todos os dias. E querendo isso do fundo do seu coração. Sou uma alma doída. Escolhi essa dor pra mim, mas sinto que daqui a pouco, bem daqui a pouquinho, mudarei tudo outra vez. E vou acordar assim, louca, e beijarei você longamente e falarei: vamos embora daqui, porque essa cidade também não é pra mim. Nem pra você. Simples. Como se fosse mudar de um cômodo pra outro. Mas é que a vida pra ela sempre foi assim, uma simples mudança de cômodos…
Setembro 29, 2009
Fuga
“Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Sem viver coisas eu não encontrarei a vida, pois? Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”
Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector.
Como se fossem novas, tomo para mim todas suas palavras. Uma a uma sou eu. Sem tirar nem por. E, enquanto não consigo viver o que sou, o que quero, o que me vem aqui dentro, recolho-me em minha ignorância e mergulho nesse meu caos imagético. Nesse momento o eu nunca foi tanto o outro.
Setembro 22, 2009
O ônibus
E quando era adolescente adorava pegar um ônibus sem destino e ficar dando voltas pela cidade. Assim, como quem não espera nada da vida além de um corredor de cadeiras cinzas enfileiradas e uma roleta metálica cheia de toda gente que por ali passava. E assim se sentia livre e feliz. Justamente porque não havia destino. Será que você entende? A sua liberdade estava ali no caminho que não havia escolhido, dentro de um ônibus. Simples assim. Simples como deveria ser essa vida. Uma menina e seus dezenove anos em uma tarde qualquer ensolarada cheia de sonhos, dentro de um ônibus. Hoje, aos trinta e poucos anos achariam que era louca. Dentro de um ônibus, sem destino, completamente louca. Mas, quem sabe, abestadamente feliz.