Era do tipo que na falta de receber mensagens interessantes, mandava email pra si mesma. Músicas, poemas, uma frase bonita, lembranças cotidianas, aniversários esquecidos, listas infindáveis do que não deveria esquecer ou do que deveria ser, o dia do casamento dos dois, as compras do mês ou as novidades de uma loja barata, dicas de viagens que nunca fizera, uma receita de bolo, mesmo não sabendo cozinhar… Era do tipo que se não tivesse alguém por perto pra compartilhar sua pequena vida, inventava pra si um mundo mágico e que ninguém entrava. E vivia achando que não era entendida. Achava mesmo que ninguém sabia viver e que as pessoas haviam esquecido o que era amor. Mas mesmo assim mandava mensagens pros seus amigos dizendo o quanto os amava e o quanto a falta deles a machucava. E também era do tipo que não tinha mais paciência e que se irritava quando recebia visitas. Muitas questões a deixavam louca. Não entendia porque todos queriam saber de coisas tão bobas e sem importância, se o que mais importava na vida era o que não era falado. Mas tudo isso durava muito pouco, porque era do tipo que se distraia facilmente. Voltava a fazer o que havia começado, mas nunca havia de terminar, porque se arrependia e começava tudo outra vez. Era do tipo que ouvia a mesma música triste um milhão de vezes e chorava bem baixinho lembrando dos tempos em que viver era muito menos complicado. Era do tipo que vivia de passado e que às vezes esquecia do presente e achava que era a criatura mais infeliz do mundo, porque o mundo já não era mais mundo. O mundo era essa coisa cheia de gente chata e egoísta. Era do tipo que jurava pra sempre que nunca mais iria falar palavrão ou xingar os outros, mas que depois de cinco minutos esquecia todas suas promessas infantis de ser alguém mais legal e esbravejava tudo outra vez. Era do tipo que não era fácil, mas que morria de amor pelos outros mais do que os outros por ela, porque era assim que ela sabia amar: morrendo.