Posted in maio 2010

Tipo

Era do tipo que na falta de receber mensagens interessantes, mandava email pra si mesma. Músicas, poemas, uma frase bonita, lembranças cotidianas, aniversários esquecidos, listas infindáveis do que não deveria esquecer ou do que deveria ser, o dia do casamento dos dois, as compras do mês ou as novidades de uma loja barata, dicas de viagens que nunca fizera, uma receita de bolo, mesmo não sabendo cozinhar… Era do tipo que se não tivesse alguém por perto pra compartilhar sua pequena vida, inventava pra si um mundo mágico e que ninguém entrava. E vivia achando que não era entendida. Achava mesmo que ninguém sabia viver e que as pessoas haviam esquecido o que era amor. Mas mesmo assim mandava mensagens pros seus amigos dizendo o quanto os amava e o quanto a falta deles a machucava. E também era do tipo que não tinha mais paciência e que se irritava quando recebia visitas. Muitas questões a deixavam louca. Não entendia porque todos queriam saber de coisas tão bobas e sem importância, se o que mais importava na vida era o que não era falado. Mas tudo isso durava muito pouco, porque era do tipo que se distraia facilmente. Voltava a fazer o que havia começado, mas nunca havia de terminar, porque se arrependia e começava tudo outra vez. Era do tipo que ouvia a mesma música triste um milhão de vezes e chorava bem baixinho lembrando dos tempos em que viver era muito menos complicado. Era do tipo que vivia de passado e que às vezes esquecia do presente e achava que era a criatura mais infeliz do mundo, porque o mundo já não era mais mundo. O mundo era essa coisa cheia de gente chata e egoísta. Era do tipo que jurava pra sempre que nunca mais iria falar palavrão ou xingar os outros, mas que depois de cinco minutos esquecia todas suas promessas infantis de ser alguém mais legal e esbravejava tudo outra vez. Era do tipo que não era fácil, mas que morria de amor pelos outros mais do que os outros por ela, porque era assim que ela sabia amar: morrendo.

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Falta

Quando ela tentou mostrar a música nova que havia descoberto naquela tarde de sol e ele a ignorou, sabia que ali não havia mais amor. Engraçado como o fim das coisas se mostram em pequenos gestos. Invisíveis até. Mas só ela, como uma boa fêmea que enxergava o indizível, notava que algo não estava mais lá. Tentou mostrar a música outra vez, mas em vão… Ele estava completamente cego. E abriu um inocente sorriso no canto dos lábios e, sem saber que estava matando o que tinham de mais precioso, a ignorou novamente. E foi lá, fazer o que não se devia fazer numa hora dessas de tanta solidão. Uma solidão a dois. Uma solidão que só ela sentia, porque ela era do tipo que não se contentava com o silêncio. Por vezes até acreditava que tudo voltaria ao que era antes (que antes?), mas sua meninice a fazia pensar nos mais absurdos finais. E passava os dias criando realidades que não existiam. E não sabia mais distinguir exatamente o que viviam dos seus sonhos. Mas a verdade é que eram felizes. Cada um do seu jeito. E pra ser feliz não é preciso construir um castelo por dia. Felicidade não é pão com margarina. Felicidade é o que pensamos.

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Linger on

O problema de ser só é que solidão vicia. E quando você se dá conta, nada mais te importa. O mundo lá fora nem importa mais. De verdade. E todos te acham a pessoa mais esquisita e egoísta só porque aquela conversa corriqueira sobre o viver diário te entedia. O problema de ser só é que não tem mais volta. E você se basta. E nada, quase nada, tem mais graça nessa sua vida de casa vazia. O problema de ser só é que você machuca devagarinho e sem saber. E essa ausência dói mais em você do que nos outros. E sabe por que? Porque eles não sabem. Porque você, querida, tem fingido muito bem.

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Esperança

Se é de idéias que o mundo é feito, porque estão todos voltados às sensações? Espera e pensa, porque ninguém vai fazer isso por você. Esquece tudo o que foi lido e o que foi idealizado, porque não é assim que se vive a vida. Essa filosofia que faz você se sentir melhor do que os outros não é de verdade. Idéia ou sensação. O que é realidade? É isso o que importa. A realidade das coisas finitas. A imbecilidade coletiva em um só lugar, vivida em um só momento. Por isso essa tua euforia de saber de tudo um pouco, mas de nunca ter feito nada. Nada. Simplesmente nada. Menos que o nada, já que até o nada existe. Você tem feito menos que nada. Tem atuado perfeitamente nessa imensidão vazia que você chama de vida. E o que é mais estranho: ainda se acha no direito de ter esperança.

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Tapete

Esforço-me diariamente pra manter a loucura debaixo do tapete. Sorrio pra quem não quero sorrir, converso o que não quero conversar, vejo o que não quero ver, ouço o que não quero ouvir, ando por onde não quero andar, como o que não quero comer, durmo sem querer dormir, vivo o que não quero viver. Vivo um fingir eterno. Mas penso o que quero pensar. E isso não me faz dona do meu destino, porque destino não existe. Essa coisa de escolha. É um inserir tão grande nesse mundo de mentira que não sei mais identificar o meu ser do todo. E sinto náuseas. Praticamente não sou o que sou. E finjo até que não tenho mais vícios e que tudo na natureza é simples como o amanhecer de um dia de sol. Simples. Mais um mês que se passa e finjo mais uma vez. Tenho essa tendência de aguentar tudo até o limite, sabe? Uma coisa meio suicida. Mas quando me vejo na beira do precipício, lembro que a vida pode ser diferente. E volto pra realidade, mesmo que fingida. E tudo volta ao que era antes. O tapete… a loucura…

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Poesia

Espera, menina, que a poesia vem de mansinho. Vem assim, como quem não quer nada, bem devagar. E quando você vê, já tomou conta de tudo outra vez. Mas nem sempre é assim. Nem sempre se tem palavras, mesmo olhando diariamente o dicionário antigo. Mesmo decorando os termos mais singelos, nem sempre se quer dizer tudo o que já foi dito. E cala-se. Cala o silêncio apertado. Inventa seu vocabulário e rescreve tudo outra vez.

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