Quando se tem certeza de que algo nunca irá mudar. E você fica ali, confinado, conformado, preparado pra nada. Pro nada. Em transe. Sentado no sofá de tecido preto, confortavelmente encostado nas almofadas vermelhas já gastas e escolhidas pra combinar com o quadro da banda predileta. Preto, vermelho e branco, o quadro. Os instrumentos musicais intencionalmente jogados num canto da sala dando impressão de que ali havia música. Um desperdício esse jazz bass sem dedos pra tocá-lo. Sempre quiseram uma casa assim. Ela, mais do que ele. Três cores aparentemente inocentes e que se complementavam. Como a vida dos dois nesses muitos anos de convivência. Mas como a natureza é perfeita, como a vida dá e cobra ao mesmo tempo, como a paixão não perdoa os que a ignoram, como existe começo, meio e fim, como em todo ciclo universal, era hora de mudar. E, depois daquela viagem pra cidadezinha chique de gente sem importância alguma pro mundo, depois de dias enxergando a vida com os olhos dela, depois do jantar a meia luz, meias palavras, a casa das três cores nunca mais seria a mesma. Pudera. A vida, meus caros, sempre dá um jeito de colocar nos trilhos o destino que outrora estava perdido. Pode ser que demore: dois, três, cinco, sete anos… Uma eternidade que seja, mas ouça bem: a vida sempre te mostra, de uma forma ou de outra, o que está errado. Não adianta se esconder, fingir-se de surdo, mudo ou morto, não, de nada adianta. Porque aquilo pra quê você veio ao mundo vai estar sempre ali, do seu ladinho, te chamando na surdina da noite insone, com um dedo bem no meio da sua cara de paisagem. E você, de uma hora pra outra, vai estar no meio da rua com meia dúzia de roupas em uma mala preta correndo feito louco de algo que você nem sabe direito o que é. Pois é. Assim é a vida de todo ser humano que tenha algum discernimento do que é o mundo e do que é viver, ter consciência do existir. Porque, ainda bem, existem os ignorantes. Essa parcela da população mundial a que chamamos de pessoas felizes. E existem os que sabem que a qualquer hora irá sentir um soco na cara. Isso se chama realidade. E, às vezes, o amor sucumbe diante do que é real. Infelizmente. Ou felizmente. Porque o amor precisa também dessa dose gigantesca de “acorde agora ou foda-se pra sempre”. Que engraçado. Logo o amor, essa coisa que dói no peito, é sujeito do que vivemos. Amor, de homem e mulher, deveria ser incondicional. Na tristeza, na alegria, na saúde, na doença, do jeitinho que o padre desavisado falou. Querido padre, oras, o senhor nunca amou. Nunca teve essa sensação de queimação por todo corpo e de seu coração estar batendo em outrem. E não existe sentimento mais nobre e perigoso. Porque, apesar da grandeza da alegria que ele nos traz, o amor é traiçoeiro. Ele te dá a ideia errada de que não somos mais sós no mundo. De que não iremos mais morrer solitários. Quanta inocência e vaidade em um só sentimento. O homem e sua incapacidade de lidar com a finitude de tudo. Pois é… Amor acaba. Ou muda. Ou transmuta. Amor engrandece, mas enfraquece também. Amor cega. E te deixa assim, anos à fio vivendo a vida de alguém que você nem conhece direito. Alguém que você encontrou no meio da rua e que te prometeu felicidade eterna. Quanta doidice. De que forma existe o eterno? Que noção errada é essa de lidar com tempo e alegria? Infinitude de amor por um estranho. E era esse amor infinito por um estranho que agora a fazia sofrer tanto. Nem se lembrava mais da dor que havia sentido no quarto pequeno e frio naquelas exatas seis semanas de exílio forçado, mas sabia que dali pra frente nada mais seria o mesmo. E nunca foi. Aquilo que foi jurado, acabou-se. E não que não exista mais amor. Existe. Mas aquele amor de portas fechadas pra rua: nunca mais. Ele a fez enxergar, da maneira que lhe era possível, que a linha tênue e invisível que liga duas pessoas no momento em que dizem sim um pro outro havia sido quebrada. A confiança de olhos fechados não mais existia. E a sensação de estar sozinha no mundo tomou conta de seu coração. Mas não se engane. Solidão não é tristeza. A volta ao eu, a essência de ser, de existir e de poder-se ser no mundo, o que você quer buscar é o grande segredo de ser feliz. Não é ser solitário. É ter felicidade além do outro. Ser feliz sozinho… Poucos sabem. E, mesmo com todo sofrimento que ainda estava por vir, ela sabia que haveria de mudar, mais uma vez, as cores da sua casa.