Às vezes você precisa voltar duas “casas” pra poder avançar uma. E, outras tantas vezes, você precisa “passar sua vez” e deixar que outros respondam a pergunta difícil que saiu pra poder continuar no jogo. E tem horas, também, que mesmo soprando os dados antes de jogá-los, você vai pra prisão e precisa esperar outra oportunidade pra poder voltar pro tabuleiro. Pois é. E você fica aprisionado por um tempo relativamente pequeno, mas que pode parecer horas, dias, semanas, meses e até anos. E, quando vê, já se passou uma eternidade. Veja bem, eternidade pode ser uma fração de segundo. A relativização dessa noção de tempo ocidental. O tempo que escraviza o homem. Pois bem. Infelizmente era nesse tempo que vivia. E, como seu coração olhava mais pro tabuleiro dos outros do que pro seu, ficara ali completamente cerceada por suas próprias armadilhas. Observava a vida dos outros avançando cada casinha pequenina do jogo, enquanto a sua permanecia imóvel. Mesmo sendo imobilidade um conceito completamente subjetivo. Quem foi que disse o que deve ser pra vida de cada um? Ninguém. Ninguém precisava lhe dar conselhos. Ela mesma sabia que estava errada e que tudo aquilo era fantasia. E sentia-se frágil e pequena, como a peça de plástico colorida que anda pra lá e pra cá de acordo com a sorte que a vida lhe reservara. Sorte? Essa categorização de sentimentos simbólicos. E, mesmo sabendo da diferença entre amor e loucura, havia se entregado completamente. Ah, essa mania de coletivizar o eu quando se encontra o tu. Mas não existe o nós sem o eu. O nós só é possível com a felicidade e realização do eu e do tu. Sem isso, não há amor que resista. E demorou muito pra que ela entendesse tudo aquilo. Sorte mesmo foi ter descoberto ainda jovem, porque tem gente que não descobre nunca, tem gente que só descobre na hora da morte, ou quando se encontra miseravelmente respondendo as perguntas do outro pra avançar uma casa no jogo que não lhe pertence. Desses, o mundo está cheio. Mas ela, mesmo sabendo dos riscos que seu amor correria ao sair da prisão, nunca mais deixaria de responder as mais difíceis questões das cartas aleatórias.