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Pequena

ainda me lembro da grama verde e do chapéu de palha que por entre os furos deixava passar o calor do sol da manhã. as flores ao lado do chapéu denunciavam certa vaidade. a pele alva, marcada pelo tempo, trazia o peso dos anos. os cabelos brancos, agora orgulhosamente assumidos, eram prova de que ali a idade havia chegado. o corpo curvado era resultado de anos de costura em sua máquina singer. afinal de contas, vestir dez crias não era tarefa fácil. as mãos fracas ainda eram delicadas, apesar de uma vida inteira de trabalhos domésticos. coisas de sua época. a cadeira de rodas fazia as vezes de suas pequenas pernas. o andar arrastado, lento e pesado anunciavam o cansaço de seu corpo.

ainda me lembro do cheiro de sua comida aos domingos. vatapá, bobó de camarão, filé à parmegiana, arroz branquinho, farofa, peixe. a casa impecavelmente limpa. lembro dos seus vestidos floridos, da sandália de todos os dias, do corpo pequeno e rápido, das mãos de cozinheira, de mulher, de esposa, de mãe, de avó.

ainda me lembro das sua intermináveis broncas. era brava. beliscava, puxava nossos cabelos. não permitia que pulassemos no sofá. “meninos danados”, dizia. e me lembro mais ainda do nosso avô nos defendendo. ele adorava a casa cheia. filhos, netos, gritos… os domingos eram sempre uma festa. para ele e para ela. mas do jeito dela. aquele jeito absurdamente sincero que a fazia ser única. o humor peculiar. o dedo em riste. o olhar de desdenho quando não ia com os cornos de alguém. o falar na cara. o desprezar. tudo isso a tornava absurdamente humana. era cheia de defeitos, de predileções, cheia de manias, por vezes era tão chata que nem seus filhos aguentavam. por vezes era tao implicante que chegávamos a duvidar de que ali havia um coração. mas havia. e que coração. era tão grande que cabia um marido, dez filhos, vários netos e mais um tanto de bisnetos. uns mais especiais, outros nem tanto. e era assim que ela amava. e pronto. e não escondia isso de ninguém.

ainda me lembro do último abraço, da conversa meio sem sentido, das suas manias de grandeza: “minha neta vai se casar em Roma”. lembro-me da televisão alta e já quebrada, do raul gil de todos os domingos, da cadeira branca e suja da comida do dia anterior, dos vestidos agora puídos, do casaco branco já amarelo, da voz embargada que teimava em chamar sua filha a cada cinco minutos, da luz azul do quarto abafado, do sono infantil, do cheiro de talco, da bengala preta e já também cansada, da aliança de ouro de seu único casamento, dos brincos antigos, do anel de pedra azul, presente de sua filha caçula e, por isso, especial, do beijo tranquilo, das lágrimas que não caiam mais…

ainda me lembro da grama verde e do chapéu de palha…

com amor, sua neta.

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