“Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. Sem viver coisas eu não encontrarei a vida, pois? Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”
Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector.
Como se fossem novas, tomo para mim todas suas palavras. Uma a uma sou eu. Sem tirar nem por. E, enquanto não consigo viver o que sou, o que quero, o que me vem aqui dentro, recolho-me em minha ignorância e mergulho nesse meu caos imagético. Nesse momento o eu nunca foi tanto o outro.