Tagged with coração

Casca

Hoje a ferida amanheceu aberta. A casquinha que protege aquele buraco ínfimo no meio da pele resolveu cair. E quando a casca cai, sobra carne. Viva. Resta tomar um banho longo e rezar pro machucado cicatrizar. Rezar não, porque ela não tinha fé. Que triste, deveria acreditar em algo maior, porque crer nesse absurdo de deus traz conforto pro coração. Verdade. Mas nesse exato momento, o que menos esperava era conforto. Precisava mesmo era de tempestade, de um redemoinho que a levasse pra onde havia deixado sua essência. Precisava viver sua vida e decidir o que queria comer no jantar. Pois é, ela sabia disso direitinho. Sabia de todos os poréns do seu dia-a-dia e resmungava solitariamente que a partir daquela semana as coisas seriam diferentes. E, por mais que se esforçasse em colocar uma roupinha comprada ali naquela loja em promoção na sua pele sem casca e sair cantarolando versos daquela música feliz que acabara de decorar, nada fazia sentido. Nem sua pouca felicidade. Nem o fato de acordar tarde todos os dias implorando pro tempo passar mais rápido. Nem sua casa sem cachorro lambendo o rosto. Nem seus não-filhos. Nem a distância de sua mãe. Nem as perguntas idiotas das pessoas de fora. Nem o tédio da sala de ginástica. Nem as flores mortas na janela. Nem o meio-sol da cidade. Nem o casamento que não veria. Nem a solidão. Nada disso fazia sentido, mas a fazia grande. De alguma forma. E, apesar de continuar ali, naquele vácuo de vida, lembrava da ferida aberta bem no meio do seu coração. A casca caída no chão. Juntou cada pedaço pequenininho e jogou um por um no lixo do banheiro branco. Mais uma casca. Mais uma dentre tantas outras que já caíram da pele. Ferida. Pele. Casca. Coração. Enquanto estiver viva, casca no chão.

Etiquetado , ,

Coração

Partia o coração vê-la assim de camisola no colchão da sala escura. A rotina que antes a matava dava lugar a um não fazer diário que a sufocava aos poucos. Seguia sua calculadora mental e quebrava prontamente todos os horários virtuais que havia estipulado pra si. Enchia a cabeça de projetos que não existiam só para enganar um pouco o tédio. Escrevia um milhão de vezes a mesma palavra pra poder se lembrar de que um dia havia escrito. Chorava olhando as paredes sem cor e as duas prateleiras penduradas vazias. Sentia passar por entre os dedos o tempo de sua juventude madura. E sabia que um dia havia de se arrepender de tanta disciplina e solidão. Jurava mentirosamente que daquele dia em diante não mais ficaria entregue a seu próprio não destino e iria sair em busca de novos sorrisos na rua. Mas a chuva chegou. Cinza. Perdia as contas das vezes em que sonhava acordada. Contava bem baixinho as esperanças que tinha. Cantava devagarinho e sorria de canto, com vergonha dos que podiam lhe ver. Arriscava uma dança pra sentir o corpo vivo, mas parava e atentava pro seu coração partido.

Etiquetado

“Assim como o espaço rodeado por quatro paredes tem um valor específico, provocado não tanto pelo fato de ser espaço mas pelo de estar rodeado por paredes. Otávio transformava-a em alguma coisa que não era ela mas ele mesmo e que Joana recebia por piedade de ambos, porque os dois eram incapazes de se libertar do amor, porque aceitava sucumbida o próprio medo de sofrer, sua incapacidade de conduzir-se além da fronteira da revolta. E também: como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas possuíssem?”

Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector.

Etiquetado , , , ,

A sorte

“Não me deseje sorte”, foram suas palavras. E parecia que dessa vez ela estava falando muito sério. Não me deseje sorte, porque eu não quero essa sua sortezinha. Eu não quero isso para a minha vida, mesmo que você ache que essa minha existência seja uma merda. E até vejo ela revirando os olhos e falando: “Eu não acho não, sabia? Tenho tudo o que sempre quis ter, mesmo que um pouco por sua causa, e não tenho vergonha disso.” E esquecia um pouco da agonia diária de ter de se cobrar tanto. E pensou que o melhor mesmo seria sumir por um tempo e esquecer todo esse povo que era alguma coisa na vida. Queria ler todos os livros que já havia lido. Só isso. Um a um, outra vez. E se atracava a um, dois, três, vários deles de uma só vez. “Quem sabe assim eu não fico só num mundo imaginado?” Todas essas histórias, todos esses personagens, os finais nem tão felizes assim. E permaneceria assim por horas, dias, meses, anos a fio. Seu mundo intelectual. Sua solitude. O buraco no peito disfarçadamente tapado. Olhava a cada minuto para o relógio e queria que o mundo acabasse ali mesmo. “Assim não precisaria fingir mais uma vez.” Mas seu sorriso pequeno e as lágrimas quase iminentes denunciavam que teria de ir. E encarar. E não fugir. E fingir. Mesmo sabendo que aquilo ali não era pra ser seu. Só não entendia por que ele não a salvava. “Não foi pra isso que ele apareceu na minha vida?” Não entendia. Ele, impassível, sabendo da sua angústia. “Mas talvez seja exatamente essa a minha salvação. Talvez ele tenha razão e talvez seja isso mesmo. Vai ver ele até está certo!” Só não entendia por que seu coração sofria tanto.

Etiquetado ,
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.