Hoje a ferida amanheceu aberta. A casquinha que protege aquele buraco ínfimo no meio da pele resolveu cair. E quando a casca cai, sobra carne. Viva. Resta tomar um banho longo e rezar pro machucado cicatrizar. Rezar não, porque ela não tinha fé. Que triste, deveria acreditar em algo maior, porque crer nesse absurdo de deus traz conforto pro coração. Verdade. Mas nesse exato momento, o que menos esperava era conforto. Precisava mesmo era de tempestade, de um redemoinho que a levasse pra onde havia deixado sua essência. Precisava viver sua vida e decidir o que queria comer no jantar. Pois é, ela sabia disso direitinho. Sabia de todos os poréns do seu dia-a-dia e resmungava solitariamente que a partir daquela semana as coisas seriam diferentes. E, por mais que se esforçasse em colocar uma roupinha comprada ali naquela loja em promoção na sua pele sem casca e sair cantarolando versos daquela música feliz que acabara de decorar, nada fazia sentido. Nem sua pouca felicidade. Nem o fato de acordar tarde todos os dias implorando pro tempo passar mais rápido. Nem sua casa sem cachorro lambendo o rosto. Nem seus não-filhos. Nem a distância de sua mãe. Nem as perguntas idiotas das pessoas de fora. Nem o tédio da sala de ginástica. Nem as flores mortas na janela. Nem o meio-sol da cidade. Nem o casamento que não veria. Nem a solidão. Nada disso fazia sentido, mas a fazia grande. De alguma forma. E, apesar de continuar ali, naquele vácuo de vida, lembrava da ferida aberta bem no meio do seu coração. A casca caída no chão. Juntou cada pedaço pequenininho e jogou um por um no lixo do banheiro branco. Mais uma casca. Mais uma dentre tantas outras que já caíram da pele. Ferida. Pele. Casca. Coração. Enquanto estiver viva, casca no chão.