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Livre

Eu crio devagar, como quem não espera mais nada da vida, mas dentro de mim é sempre esse vendaval. Tenho andado muda, como alguém que já não vê graça em mais nada. Nem em poesia. Ao contrário de você, que vê poesia em tudo. Deve ser coisa da idade. Talvez, maturidade. Mas uma maturidade doída, porque viver é o exercício que mais mata em vida. Principalmente quando você tá no meio dessa existência fadada ao nada. Isso mesmo. Ser humano vira pó. Não tem céu, não tem purgatório, não tem inferno. É isso aqui e mais nada. E cada vez que outro ano chega, mais certeza tenho de que tenho feito tudo errado. De que todos os planos sonhados se vão com o verão. Volto a traçar metas, porque é da minha natureza gostar de listas, mas tenho certeza de que esquecerei palavra por palavra novamente e viverei livre. Ou melhor, fingindo ser livre. Porque não sou mais. E quando fui, ah, como era feliz. Era feliz, porque só assim poderia ser livremente triste.

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Escrota

Marina sentiu-se feliz como há muito não havia se sentido. E por isso resolveu escrever um texto, no mínimo, alegre. Sentou-se à frente do seu computador surrado, abriu o documento vazio e começou a digitar palavras. E como fazia tempo que não escrevia algo desse tipo, faltou vocabulário. E procurou por entre os livros que já havia lido algum significado que a fizesse querer descrever o que não tinha descrição. Desde quando amor se descreve com palavras? Pensou sorridente, mas já escondendo as lágrimas. E tentou inventar novos termos, e começou a  ler outra vez o livro que acabara de comprar, e procurou nos dicionários por palavras que nem sabia se existiam, e foi pensando, e escrevendo, e dizendo tudo o que lhe vinha de supetão, dissonantemente feliz. E pegou a Clarice e abriu sua vida, suas páginas e tentou desvendar centímetro por centímetro cada termo vivo. Mas tudo em vão. Ao mesmo tempo tentava entender como podia amar tanto assim. E parecia que amava mais do que os outros, que sentia tudo mais do que os outros, que se morria mais do que os outros, que sentia saudade mais do que os outros, que se fudia mais do que os outros. E não conseguiu encontrar sua palavra-isca. Foi quando lembrou do que um amigo acabara de dizer que era a sua cara e que a descrevia perfeitamente: escrota. Mas um escrota legal, sabe? Olhou para a tela com um sorriso malicioso e escreveu: felicidade é uma coisa escrota pra caralho.

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O câncer

Quando aquele nosso amigo virou pra mim e falou que a namorada dele viria pra cá fazer um pós-doutorado em sei lá o que, juro que quase choro de tanto orgulho. Mas quando ele falou que ela, com menos de trinta anos, já havia escrito oito papers e que havia sido prontamente convidada pra fazer parte de um importante grupo de estudos americano, juro que fui ficando um pouco incomodada. E mais pra frente, quando ele, não satisfeito com a minha cara de bunda, falou-me que ela era uma das poucas pesquisadoras do mundo que resolveu estudar, por toda sua vida, uma possível cura para o câncer de garganta, juro que pensei na hora em me atirar da janela daqui de casa. Uma pena morarmos no terceiro andar… Olhei pra ele e esbocei um sorriso amarelo. E quando ele me perguntou o que eu estava fazendo, perdi a voz e fiquei meio que muda. “Ah, estou escrevendo umas coisas”. E por mais que ele tentasse entender o meu incômodo, não havia mais como remediar a situação. Iria ficar o dia todo pensando nessa merda de destino. Ou de carreira. Ou de profissão. Ou de vida. Ou de qualquer coisa. Daí pensei em uma solução muito rápida pra me sentir confortavelmente inútil outra vez. Resolvi ser maniqueísta. Isso mesmo. Então dividi o meu mundo em: os que desenvolvem câncer e os que estudam a cura pro câncer. Claro que logo logo coloquei-me do lado dos que desenvolvem câncer. Minhas angústias diárias, meu cigarro socialmente tragado, minha vida poeticamente desregrada (mentira), os enlatados, os refrigerantes, as horas na frente do computador. É isso! Pensei aliviada. E me senti estranhamente feliz.

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O pássaro

Carol acordou preguiçosa, como de costume, mas decidiu que aquele dia seria um dia feliz. O sol batia em sua janela e por entre sua persiana dava para ver o azul do céu. Pulou da cama e logo lembrou de que naquela manhã havia de se encontrar com sua amiga Joana. Após o banho vestiu seu único vestido florido, não era muito afeita a esse tipo de estampa criada para meninas felizes, escovou os cabelos castanhos escuros cuidadosamente, passou um brilho na boca carnuda, calçou sua sandália predileta e logo estava andando pelas ruas da cidade grande com Joana. Carol falava sobre a vida, como de costume, a sua vida, o dia-a-dia naquela cidade estranha, falava sobre amor e no tanto que havia decidido que sorriria todos os dias, mesmo achando que não havia motivos para sorrir. Joana, como sempre, ouvia calada as resoluções repentinas de sua amiga. Era do tipo que só falava quando não tinha razão alguma para falar. Completavam-se. Complementavam-se. Carol continuou, resoluta de que nunca mais abriria mão da sua felicidade. Abriu um sorriso cheio de dentes, sentiu-se finalmente feliz, enquanto um passarinho, sem mais delongas, cagava em sua boca.

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Dizem…

Dizem que você só dá valor a algumas coisas na sua vida quando você as perde. Dizem… E juro que estou cansada desses clichês coletivos . Mas juro que hoje senti falta do usual. Senti falta daquilo que mais odeio na vida e, mais uma vez, vi-me rodeada por minhas não conviccões. Desde quando sou completamente neurótica? Aliás, será que sou neurótica ou os outros é que são comuns demais? Não entendo. Nem quero entender. Só sei que não quero mais ser o que escolhi pra ser hoje.

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30 e poucos anos

Aos 30 e poucos anos ela ainda não estava satisfeita com a sua própria vida. Estranho fosse se estivesse. Não era do seu feitio satisfazer-se com o que tinha. Nao que não fosse feliz. Era. Por vezes era muito feliz. E poderia ser muito mais não fosse suas próprias cobranças.

E o desejo de completude mais uma vez a perturbava. Merda de esperança. Por que nao se acostumar com a mesmice? Todos os árduos anos de estudos jogados fora… Era o que pensava. Pensava? Sim, ela ainda se dava ao direito de pensar. Apesar de ter de assistir a sua própria insatisfação quieta, fingindo que as coisas, um dia, iriam se ajeitar.

Não se via em lugar algum. Era uma desajustada social. Se sentia velha demais para voltar e fazer o que sempre achou que amava. Sentia-se nova demais para desistir. Desistir do que? Pobre sonhadora. Desistir do que, se ela nem ao menos tentou?

Estava bem ali, no meio de tudo. No meio da vida, na meia idade, no meio do casamento, no meio de outra cidade, no meio de todos que não falavam mais a sua língua. No meio da merda. Era assim que se sentia.

Estava ali simplesmente pelo sucesso de alguém. E isso era público. Mas ela não se contentava com isso. Ela queria mais. Precisava de mais. Queria mostrar para que veio ao mundo. Queria ser reconhecida de alguma forma. Que piegas. Parece que todo esse talento de dizer o que quer e de fazer o que bem entende nao combina mais com a garota da cidade pequena. Pequena demais para ela. Antes não o fosse. Antes tivesse nascido com o destino certinho, traçado. Mas não, quem mandou ler todos aqueles livros? Conhecimento só te fode. Bom mesmo é ser ignorantemente feliz.

Pensou em queimar todos seus livros, principalmente aqueles que a faziam ter vontade de querer demais da vida. Aqueles que a ensinaram a olhar a si mesma como dona do seu destino. Aqueles que a ensinaram a ter a exata noção do significado da sua existência. Queimem todos os livros, pensou ela. E serei mais uma menina de 30 e poucos anos.

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