Aos 30 e poucos anos ela ainda não estava satisfeita com a sua própria vida. Estranho fosse se estivesse. Não era do seu feitio satisfazer-se com o que tinha. Nao que não fosse feliz. Era. Por vezes era muito feliz. E poderia ser muito mais não fosse suas próprias cobranças.
E o desejo de completude mais uma vez a perturbava. Merda de esperança. Por que nao se acostumar com a mesmice? Todos os árduos anos de estudos jogados fora… Era o que pensava. Pensava? Sim, ela ainda se dava ao direito de pensar. Apesar de ter de assistir a sua própria insatisfação quieta, fingindo que as coisas, um dia, iriam se ajeitar.
Não se via em lugar algum. Era uma desajustada social. Se sentia velha demais para voltar e fazer o que sempre achou que amava. Sentia-se nova demais para desistir. Desistir do que? Pobre sonhadora. Desistir do que, se ela nem ao menos tentou?
Estava bem ali, no meio de tudo. No meio da vida, na meia idade, no meio do casamento, no meio de outra cidade, no meio de todos que não falavam mais a sua língua. No meio da merda. Era assim que se sentia.
Estava ali simplesmente pelo sucesso de alguém. E isso era público. Mas ela não se contentava com isso. Ela queria mais. Precisava de mais. Queria mostrar para que veio ao mundo. Queria ser reconhecida de alguma forma. Que piegas. Parece que todo esse talento de dizer o que quer e de fazer o que bem entende nao combina mais com a garota da cidade pequena. Pequena demais para ela. Antes não o fosse. Antes tivesse nascido com o destino certinho, traçado. Mas não, quem mandou ler todos aqueles livros? Conhecimento só te fode. Bom mesmo é ser ignorantemente feliz.
Pensou em queimar todos seus livros, principalmente aqueles que a faziam ter vontade de querer demais da vida. Aqueles que a ensinaram a olhar a si mesma como dona do seu destino. Aqueles que a ensinaram a ter a exata noção do significado da sua existência. Queimem todos os livros, pensou ela. E serei mais uma menina de 30 e poucos anos.