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A espera

Será que isso tudo é verdade? Ou é mais uma piada de mal gosto? Esse sofrimento todo, essa dor, o corpo velho, cansado, o olhar distante e embasado, quase que sem vida, a tormenta diária de acordar no mesmo lugar, na mesma cama, a mesma boca aberta, os mesmos sonhos, os mesmos pesadelos, a faca que entra nas costas diariamente, pouco a pouco, o cuspe de um louco que atravessa a porta, o limite entre vida e morte, o limite entre amor e ódio. O nada. A desesperança. As poucas coisas boas massacradas pela ordem do dia.

Será que tudo isso é verdade? Isso tudo o que? Isso! Isso que está aqui na minha garganta. Esse grito agonizante guardado há anos. Longos 3 anos. Os anos mais infrutíferos da minha vida. E ao mesmo tempo os anos que mais valeram à pena. Valeram? Valeram. Sim. Valeu experimentar algo que nunca mais se quer sentir. Isso sim é não querer algo do fundo da alma. Isso sim é vida. É se fuder, levantar a cabeça e partir para guerra. E que guerra… Guerra diária. Pena ter inimigos tão sem expectativas. Inimigos franzinos. Inimigos insignificantes. Inimigos mesquinhos. Mas pelo menos são inimigos. Precisamos deles diariamente. Inimigos diários que nos fazem melhores. Que me fazem forte. Que me fazem olhar para frente e querer desprezar ainda mais a humanidade. A humanidade deles, não a minha. A minha humanidade é outra. É inocente. Não sofre perseguições. Não. Minha humanidade é igualitária. É tudo o que não sou mais. Minha humanidade está morta desde o dia em que pisei em terras estranhas.

Mas me diz uma coisa: será que tudo isso é verdade? O triunfo final. O gozo. O ápice, mesmo que momentâneo. Será? Seremos finalmente felizes? Claro que não. Mas seremos finalmente um pouco livres? Talvez. Talvez sim. Um pouquinho iguais ao que éramos antes. O sorriso na boca. Lábios que se tocam. O amor diário. Profundo. Tuas mãos nas minhas. A espera. Longa e inacabável espera.

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