Cresci ouvindo que o ideal mesmo era fazer muito mais amigos do que inimigos. Aliás, quanto mais eu pudesse evitar fazer inimizades, melhor. Diziam-me que se alguém me provocasse na escola, não deveria revidar, mas sim demonstrar educadamente uma atitude contrária à da provocação. Mais ainda, ouvi falar que um cara cabeludo e barbudo achava que melhor mesmo era que quando alguém batesse na minha cara deveria virar o outro lado do rosto para apanhar novamente. E uma vez minha mãe ainda me disse que conheceu uma ovelha que era tão boazinha que mamava na mãe dela e na das outras ovelhinhas. E que havia uma ovelha tão brava que mal mamava na mãe dela, imagina nas outras mães! E sempre achei meio nojento esse papo de mamar nas outras mães. Mas deixa pra lá. Pois é… Sempre fiquei pensando que desse jeito o mundo seria, no mínimo, chato, mas ficava quietinha escutando as regras que os adultos adoravam cagar. E quando o tempo foi passando, quando fui jogada num mundo cheio de outros seres humanos de diversas naturezas, percebi que todas aquelas crenças não combinavam muito bem com o que iria viver pela frente. E foram anos tendo de lidar diariamente com o que me ensinaram e com o que era de fato realidade. E cresci com essa dualidade absurda. Porra de virar a cara, pensava. Vou é revidar, porque isso é seleção natural. Isso é biologia pura. Darwinismo vivido na pele. E às vezes revidava, às vezes virava a cara, às vezes mamava em todas as ovelhas idiotas, às vezes era tão brava que não mamava, mas às vezes chorava também para poder mamar. Escondidinha, no meu canto, esperando a hora de dar o bote. E foi com pouca idade que descobri que a lei da sobrevivência era muito mais dura do que imaginava. Onde será que esse povo aprendeu toda essa baboseira? Aqui na minha realidade pequena as coisas são diferentes. Tem de ser mala na vida, minha filha. Mostrar as garras, ranger os dentes, falar alto, e falar, e berrar, e espernear, mas tudo isso com uma elegância peculiar de pessoas que nasceram para viver, e não para existir. Mas confesso que me machuquei muito também. Muito. Porque essa fortaleza toda um dia sucumbe ao amor. E você vira de novo uma ovelhinha mansa. E por vezes minha natureza leão me ensinava a hora de ficar quietinha, a hora de gritar e a hora de ignorar abertamente alguns inimigos pequenos. Verdade mesmo é que, assim, fiz mais amigos que inimigos. Coisa mais estranha. Tava sempre tão pronta para arrumar uma boa briga. Uma pena mesmo. Inimigos, os que valem à pena, são os que fazem tudo ficar melhor. A sede por sangue. Uma ignorância meticulosamente estudada. E os meus inimigos silenciosos? Chamo a todos de covardes.