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Relógio

Os dias que antecederam o seu aniversário foram de uma angústia calada. Sempre esperava por algo surpreendentemente inovador. Um tipo de milagre mesmo. Coisa difícil de se explicar. Mas dessa vez escolheu a solidão. E escolheu que o melhor seria ficar quieta, vendo, dessa vez, a vida passar sem ter de sentir a agonia dessas pessoas estranhas de agora. Que loucura é essa de ter de viver desesperadamente todos os dias? Que mania é essa de ter de prestar contas das suas próprias escolhas? Queria mesmo era um beijo de verdade. Sentir os lábios molhados. As mãos por entre a cintura. Os abraços dos seus verdadeiros amigos. E sorriu sozinha. Como quem escondesse sua felicidade por vergonha de ter de explicar o motivo de sorrir sem explicação. Queria não ter de criar a expectativa de todos esses anos. Essa perfeição comprada em lojas. Não havia motivos mais para isso. O tempo havia passado. Aliás, idade é só uma questão de tempo. Felicidade não. Essa maturidade alcançada pra nada. Pra nada. Pra sentir saudade. E olhou pra trás e lembrou de todos seus aniversários. Havia sido tão feliz. Pena não ter tido toda essa consciência. Sua inocência. Perdida num passado agora tão distante. Sua cidade natal. E todos estavam lá. A foto com seus avós mortos. Os irmãos agora crescidos. O bolo partido ao meio. As velas apagadas e já frias. Os balões murchos. Os mais novos. Os que estão por nascer. O tic tac do relógio que não para. Seus olhos infantis. A espera por nada. O coração agora calmo. O seu não-aniversário.

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O não aniversário

a dor da ausência, o aniversário adiado. a vida que não existe mais, o não abraço, o não beijo, a não voz. a ausência. pensava diariamente no que poderia ter sido, como se toda aquela presença estivesse ali ao seu lado. mas se todo destino era morte, não havia como não aceitar. entendia, mas não aceitava, porque saudade é algo que não se explica.

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